Os New York Dolls foram a melhor e mais menosprezada banda de rock and roll “travesti” de todos os tempos. Antes que os remanescentes (o vocalista David Johansen e o guitarrista Sylvain Sylvain) também embarquem nessa viagem sem volta, faremos aqui um belo memorial.
Arthur Harold “Killer” Kane, baixista dos New York Dolls, faleceu aos 55 anos, em Los Angeles, em 13 de julho, no dia do rock, devido a complicações relacionadas a uma prolongada leucemia. Agora já são três os músicos desencarnados desse quinteto glam nova-iorquino, criado e enterrado em alguns poucos anos, na década de 70. O matador se foi, a lenda fica: os NY DOLLS
Os Dolls (As Bonecas de Nova York - uiii) eram os Rolling Stones (ou os Faces) bizarros. Reparem como cada músico embonecado, como um reflexo grotesco, escolheu um stone favorito para ser a sua própria ovelhinha DOLLy. Importante frisar... a imagem e o som também, frutos do R&B dos Stones. Arthur Kane era o baixista louro que usava os saltos de plataforma mais altos, e os olhos pintados, isso sem perder a ternura de um batonzinho jamais. De todos era o que possuía menos rebolado. Não ria, era meio estranho, mas era o homem (?) certo para a banda certa. A lenda é curta, mas é de boa cepa.
A LENDA:
Johnny sugeriu Dolls. Johansen incluiu o “de Nova York”, mas arrependeu-se depois: “Todo mundo odeia Nova York! Para que eu fui sugerir isso?” Os Dolls ensaiavam numa loja de bicicletas tocando clássicos negros até o sol raiar. A formação contava com Kane no baixo, David Johansen cantando e desmunhecando, mais Johnny Genzale (ou Johnny Volume, mais conhecido como Johnny Thunders) e Sylvain (Mizrahi) Sylvain nas guitarras (esse substituindo Rick Rivets). O baterista se chamava Billy Murcia, um grande fã de Marc Bolan. “Quando era adolescente assisti muitas bandas tocando em NY. De repente tudo acabou, talvez pela perseguição da polícia. Aí surgiu o Max’s, mas quem tocou lá durante um verão inteiro foi o Velvet Underground, que era um treco horrível. Não era rock and roll. Ou você tocava no emaconhado Fillmore ou pegava um monte de ônibus para assistir a um show. Não havia cena quando os Dolls surgiram”, disse certa vez David Johansen, o vocalista, um sujeito bem mais ligado às artes do que os outros, tendo participado de algumas peças, performances e filmes pornô. “Vivíamos o nascimento do feminismo e da luta gay. Estava nas ruas, em todos os lugares e com um pouco de ácido, a gente achava muito normal participar de tudo isso”, completa. “Todo mundo passou a se maquiar, masa base de tudo foram bandas como os Stones, os Pretty Things, e os Flamin’ Groovies.”Estavam juntos há quatro meses e meio, desde janeiro, tocando uma vez por semana no Mercer Arts Center às terças a meia noite (Kane morreu em uma terça..) na sala Oscar Wilde. O Mercer era um grupo de teatros remodelados no centro da cidade da Grande Maçã com visual inspirado no filme Laranja Mecânica. A banda tocava no chão, no centro da sala, cercada por figuras mais estranhas e bissexuais, entorpecidas por cocaína e pílulas (“Pills”). Meninas pegaram os seus ônibus de todos os cantos da cidade para participar do evento que nascia, com muito glamour. Essa conjunção fez história. Dois garotos de uma bandeca chamada Kiss (Gene e Ace), que iriam dividir o palco com os Dolls na segunda metade de 73, concluíram que deveriam se pintar também. Como se achavam muito feios maquiaram-se de branco e negro. David Bowie e Lou Reed passaram por lá também para aprender algo com os Dolls... Reed chamou-os de “gracinhas” (meio Clodovil isso).A demo número um foi registrada no verão de 1972 em NY. A maior parte das nove canções seriam regravadas para o primeiro álbum. Três meses e meio após a gravação, viajaram para a Inglaterra abrir um show do Rod Stewart com os Faces perante 13 mil almas no Wembley Stadium, sem nunca terem tocado para mais de 300. Duas semanas depois dessa fantástica oportunidade, o baterista Billy Murcia morreu de overdose no sexto dia de novembro. Jerry Nolan, um fã dos Dolls que tocava bateria com o travesti Wayne County (na banda Queen Elizabeth) foi convidado para substituí-lo. Seis semanas depois retornaram ao batente em 19 de dezembro de 1972, mas a banda nunca se recuperou verdadeiramente desse golpe. Nolan era evidentemente melhor baterista, mas parte daquela inocência se fôra, com o primeiro golpe dos muitos que viriam. O disse-me–disse era tanto, que a gravadora Mercury os contratou. O considerado gênio Todd Rundgren foi convidado para produzir. O disco foi gravado em uma semana. Muitas, muitas drogas. Thunders pedindo: “Aumentem mais a guitarra!” Todd quase enlouqueceu, mas o disco saiu em 1973, m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o como ele só.: “Personality Crisis”, “Looking For A Kiss”, “Frankenstein”, “Trash” (Uh, how do you call your lover boy?) , “Bad Girl”, “Pills”, “Jet Boys”... Cada uma melhor que a outra, com ótimas letras e a produção luxuosa no estilo Todd, com tudo no exato lugar. Apesar disso, não atingiu lugar algum na parada inglesa e nos Estados Unidos amargou um centésimo décimo sexto lugar. Perguntem que lugar o tal do Kiss alcançaria...Os caras dos New York Dolls odiaram a produção do Todd, principalmente Thunders, somente Johansen tinha noção de que o trabalho havia sido muito bem feito. Isso sem citar a capa escandalosa: todos travestidos, muito maquiados, perfeitas vagabundas! Uma imagem chocante até hoje, imagine exposta nas vitrines daqueles tempos...Quando os Dolls chegaram a Los Angeles para promover o primeiro disco, a cidade ficou aos seus pés, e de quatro. Mulher, era só piscar. Era tudo alegria e sucesso até que gravaram o segundo LP em março de 1974, com produção do legendário produtor dos anos 60 “Shadow” Morton. Quem intitulou o trabalho de “Too Much Too Soon” (Muita coisa muito cedo) sabia o que estava falando. Apesar de ser aparentemente mais “honesto” do que o primeiro, funcionava menos apesar das fantásticas (desculpem-me tantos adjetivos, mas sou glam) “Babylon”, “Stranded In The Jungle”, “Puss ‘N’ Boots”, “Chatterbox” (com vocais de Thunders), e “Human Being”. O nosso baixista Kane estava numa fase braba durante a gravação, mais alcoólatra do que nunca, e envolvido num caso alucinado com uma groupie/michê do Lower East Side de NY chamada Connie Gripp, que reza a lenda, tentou esfaqueá-lo. Parte do dedo do Arthurzinho caiu pelas tabelas. Como o próprio dono da mão. Uma outra das groupies que dormiram com a banda toda (menos com Kane) chama-se Nancy Spungen... Esse nome te lembra alguém???A promoção do segundo e novo álbum em NY ocorreu no Club 82, cujo(a)s dono(a)s eram lésbico(a)s e em homenagem as/aos drags presentes, e aos proprietários Tommy e Butchie, os Dolls tocaram (com) vestidos de mulher. O/A dono(a) da casa gritou da porta para Johansen: “Eu sempre te disse que você não passava de um veado!” O estranho carma do disco era tanto, que uma música do Mott The Hoople (All The Young Dudes) chamada “Too Much Too Soon” (!) nunca passou do centésimo sexagésimo sétimo (167) lugar na parada norte-americana!!! É... não era para rolar mesmo...Como o disco não decolava e as contas a pagar aumentavam cada vez mais, foram-se as limusines, a mulherada “a fim de” e o belo e grande apartamento duplex, que a gravadora bancava até então. Voltaram, de malas e cuias, para um apêzinho no Village. Sylvian uma vez disse que esse foi o melhor e o pior período da carreira deles. O aspecto positivo, devido ao espaço reduzido, foi que se tornaram mais próximos, como nos velhos tempos do primeiro apartamento de um quarto só no lower east side. Thunders compunha uma música às três da manhã e acordava os outros para que ouvissem a nova cria. As baratas agradeciam. Os Dolls voltaram a ser uma família. De viciados, mas uma família. Nessa fase de vacas magras surgiu uma esperança no horizonte: Malcolm McLaren. Uma esperança frustrada, como veremos a seguir.
CONTOS DA MEIA NOITE
Seis canções que fariam parte do terceiro álbum, nunca lançado, podem ser encontradas no pirata Live In NYC – 1975, lançado pela Restless em CD, depois da primeira versão em LP editada em 1984. Registro da tal Red Patent Leather Tour, a excursão do “couro vermelho”, as seis faixas inéditas “Red Patent Leather”, “On Fire”, “Girls, Girls, Girls”, “Down, Down Downtow”, “Pirate Love” e “Teenage News” são parte desse documento inédito. Apesar do som ao vivo de “gravadorzinho”, esse CD é um importante registro. Dessas faixas, “Girls” foi para o primeiro disco solo do vocalista, “Pirate Love” para o de Johnny e “Teenage News” ficou com Sylvain.Absolutamente TODAS as bandas de glam metal californianas “do planeta” nos 80 se inspiraram no cabelo levantado de Johhny Thunders. E Thunders se inspirou em alguém? Em Rod Stewart! O guitarrista dos Dolls partiu do cabelo de Rod para algo mais radical, pegando aquele cabelo picotado do vocalista e levantando as pontas muito mais para cima, como uma coroa, incluindo ainda uma listra loura platinada na parte de trás. As roupas eram todas da namorada, incluindo um lenço de vaqueiro. Uma das marcas dos Dolls era misturar o visual das garotas dos anos 40 com roupas de caubói.Pegue o filme Velvet Goldmine (1998) na locadora e ouça “Personality Crisis” dos Dolls interpretada pelo Teenage Fanclub com os vocais da “Elastica” Donna Mattews.A Les Paul Gibson branca de Thunders foi repassada para McLaren para saldar uma dívida. Esse mesmo instrumento parou nas mãos de um ladrãozinho desempregado que vivia grudado no rabo de saia desse sujeito empresário/dono de boutique. Em troca, McLaren “exigiu” que o estreante guitarrista montasse uma banda. Quatro desocupados ingleses (na verdade três e um fã dos Beatles) partiram das idéias dos Dolls, gerando os Sex Pistols, na mesma loja de artigos sexuais em Londres, e com o mesmo empresário. O resto, como se diz, é história.Steven Tyler, do Aerosmith, sempre acusado de imitar Mick Jagger, defendeu-se certa vez assim: “Muitos dizem que pareço com Jagger, mas reverenciei mesmo os Dolls. Johansen tinha lábios maiores. Esse cara poderia engolir o planeta...”“Quando os Dolls estavam se preparando para ir à Flórida, Arthur (Kane) teve alta do centro de desintoxicação. Uma hora antes de Malcolm ir pegá-los, Arthur apareceu na minha casa com uma garrafa de uísque.” - Eillen Polk, fotógrafaEpígrafe para Kane: “Ele era assustador quando ficava possesso” - Eillen Polk
Seu empresário em 1975 veio a ser um tal de Malcolm McLaren, dono de uma loja de artigos sexuais em Londres. David Johansen, o vocalista o chamava de “seu dono de armarinho”. McLaren queria entrar no ramo de empresariamento e os usou como passaporte. Os três primeiros shows sob “nova direção” foram no Little Hippodrome em NY, com abertura de várias bandas, entre elas o Television. O apartamento nova-iorquino do inglês só continha um gigantesco mapa dos Estados Unidos na parede e um telefone. Malcolm colocava pins sobre as cidades nas quais a banda tocaria.. e pins nas que haviam se recusado a receber o quinteto. Como ótimo marqueteiro que era, Malcolm ouviu a sugestão da banda de excursionarem vestidos de couro vermelho. Pela história de utilizar a bandeira comunista atrás da bateria, em plena guerra do Vietnã, ninguém se responsabiliza... mas todo mundo sabe que foi coisa do Malcolm, que sacava uns papos de revolução francesa com a banda, e sabecumé...A história do vermelho surgiu durante uma estadia da banda em Londres, quando um dos músicos comprou um par de sapatos carmim. Para não virar bagunça, todos adquiriram o mesmo material. Daí em diante pediram camisetas vermelhas. Malcolm trouxe a rouparia avermelhada da Inglaterra. Surgiu a idéia da bandeira. Uma jornalista alertou: “Nos Estados Unidos, você pode ser viciado, gay, travesti, mas NUNCA um comunista.” Só poderia ter dado merda, e foi o que aconteceu. Quando chegaram à Flórida, a mãe do baterista (que lá vivia) os encheu de milho e purê de batatas porque os achou magros demais. Mal sabia ela... Tudo parecia estar indo bem, até que, no meio da tour, o guitarrista Thunders e o baterista Jerry Nolan decidiram que queriam voltar para NY (pela heroína) a qualquer custo. Mandaram McLaren tomar onde gostava e partiram. Sylvian, a contragosto, os levou até a estação de trens. Thunders nem olhou para trás. Ainda assim, Sylvian perguntou para Nolan: “O que vai ser dos Dolls?” E o baterista respondeu: “Eles foram ótimos, cara... ótimos.” Com a mesma mala que levaram, voaram para a Inglaterra para tocar com sua nova banda, os Heartbreakers, com o ex-baixista do Television, Richard Hell. Sem querer fazer piada sem graça, e já fazendo, a coisa pegou fogo (ou virou um inferno) e Hell “picou” a mula logo, fundando os Voidoids. Ao mesmo tempo, a dupla Sylvian/Johansen montou um novo Dolls com mais músicos, partindo para o Japão em julho (Kane morreu no mesmo mês...) do mesmo ano, mas as bonecas já haviam se incendiado...McLaren convidou Sylvian para ingressar nos Pistols. Ele recusou. Os Heartbreakers, além de terem feito uma bela carreira (inclusive “junkie”) com muitos hits (“One Track Mind”, “I Wanna Be Loved”, “Let Go”, “Get Off The Phone”, “All By Myself”, “Going Steady”, “Born To Lose” etc ), participaram da primeira turnê punk inglesa com os Pistols, o Clash e o Damned. Quando Nolan desistiu em 77, dois dos bateristas substitutos nos Heartbreakers foram Paul Cook dos Pistols e Terry Chimes do Clash. Em janeiro do mesmo ano, Sylvian sofreu um acidente de carro, quebrando a perna. Com o dinheiro do seguro prensou cinco mil cópias de sua nova banda, Criminals (após passar um par de anos acompanhando Johansen). A partir de 78, com a falência da gravadora dos Heartbreakers, Thunders seguiu solo (ouçam o ótimo So Alone, com as participações de Phil Lynott, do Thin Lizzy, e Steve Marriot, dos Faces/Humble Pie), até reformar os Breakers na década seguinte. Nos anos 80, Johansen mudou de nome para Buster Poindexter e coadjuvou dezenas de filmes, além de continuar gravando música de cabaret e blues. Arthur Kane tocou com a Killer Kane band, os Corpse Griders e os Idols, durante essa longa espera. Em 1991, após anos de vício, Thunders partiu desse mundo para melhor, no mês de abril. Nolan caminhou para os braços de Deus no mesmo ano devido a um ataque cardíaco e apenas quatro meses após a morte de Thunder.
E Morrissey? O que tem a ver com os Dolls? Ele era o presidente do fã-clube inglês da banda nos anos 70! Parece incrível, mas as viadagens do ex-homem (????) de frente dos Smiths eram herdadas de um comportamento tipicamente dolliano. Como um profeta, Moz, convidado para atuar como diretor artístico do Meltdown Festival, na Inglaterra, ocorrido entre os dias 23 e 25 de junho, incentivou a reentré dos Dolls, após 27 anos de separação, além de tê-los chamado para abrir alguns dos próprios shows em Nova York no mês de maio. E, como quem não quer nada, os fez assinar com o selo Attack, de sua propriedade, para lançamento do novo CD em setembro. Morrisey cismou de ver os Dolls no palco mais uma, e talvez a última vez. Tinha convidado inclusive Chrissie Hynde, dos Pretenders, que era sócia de carteirinha do mesmo fã-clube, para substituir Thunders no festival (mas descolaram o ex-Guns N’Roses Izzy Stradlin para o lugar), e para o banco-quente do baterista foram convidados alguns músicos da nova geração britânica.... mas um deles topou o desafio.A formação que se apresentou no Royal Festival Hall em Londres na noite do dia 16 de junho contou com a bateria de Gary Powell, dos Libertines, além de Izzy na guitarra. Talvez por Kane estar por perto, furtaram do palco, e na mão grande, um livro de “incalculável valor sentimental” com as letras do grupo, no final do show!!! Começou mal e terminou pior ainda. Parece brincadeira, mas já adoentado, Arthur Kane aceitou a tarefa e realizou a sua parte com maestria. O baixista não tocou no Move Festival, em Manchester, devido à doença, porém, já um pouco recuperado, fez a grande apresentação de sua vida no festival produzido por Morrissey. Kane ficou estupefato com a reação do público com as velhas canções dos Dolls. No Meltdown, Johansen fez um comentário jocoso para a platéia sobre o estado físico do baixista: “Vocês acreditam que esse aí é o Killer Kane?”. Segundo a BBC, Killer parecia ter sido sedado para conseguir subir ao palco. Apesar dos comentários, o show foi maravilhoso, incluindo músicas dos dois álbuns, incluindo homenagem ao defuncto Johnny Thunders (tocaram o grande clássico do guitarrista “You Can´t Put Your Arms Around a Memory”). Terminaram o set com “Personality Crisis” e “Human Being”, que recebeu uma ovação do público. Um mês depois estava morto. Teve sintomas de uma gripe, foi internado e não saiu do hospital...Uma das características do baixista era ser detentor de um azar cármico, ou no mínimo, ser o rei das más companhias, nunca se sabe ao certo. Lembram daqueles tumultos em Los Angeles, em 1991, quando policiais brancos foram absolvidos após espancarem o negro Rodney King nas ruas? A cena passava repetidamente na TV naquela época. Pois bem, no meio dos tumultos, Kane cismou de sair de casa. Jovens negros saíram às ruas para protestar. Outros para vandalizar. Kane na rua... Negões na revolta... Adivinha quem encontrou quem? Resultado: 54 mortos, 13.212 prisões, U$700 milhões de prejuízos e 2382 mais Kane na lista de feridos.
Discografia
New York Dolls (1973), Too Much Too Soon (1974), Johnny Thunders & The Heartbreakers - LAMF Revisited (coletânea, Receiver, 1994), Johnny Thunders & The Heartbreakers – Live At Max’s Kansas City ’79 (Trama/Roir), Lipstick Killers (a demo, com o primeiro baterista – Trama)
Os Dolls (As Bonecas de Nova York - uiii) eram os Rolling Stones (ou os Faces) bizarros. Reparem como cada músico embonecado, como um reflexo grotesco, escolheu um stone favorito para ser a sua própria ovelhinha DOLLy. Importante frisar... a imagem e o som também, frutos do R&B dos Stones. Arthur Kane era o baixista louro que usava os saltos de plataforma mais altos, e os olhos pintados, isso sem perder a ternura de um batonzinho jamais. De todos era o que possuía menos rebolado. Não ria, era meio estranho, mas era o homem (?) certo para a banda certa. A lenda é curta, mas é de boa cepa.
A LENDA:
Johnny sugeriu Dolls. Johansen incluiu o “de Nova York”, mas arrependeu-se depois: “Todo mundo odeia Nova York! Para que eu fui sugerir isso?” Os Dolls ensaiavam numa loja de bicicletas tocando clássicos negros até o sol raiar. A formação contava com Kane no baixo, David Johansen cantando e desmunhecando, mais Johnny Genzale (ou Johnny Volume, mais conhecido como Johnny Thunders) e Sylvain (Mizrahi) Sylvain nas guitarras (esse substituindo Rick Rivets). O baterista se chamava Billy Murcia, um grande fã de Marc Bolan. “Quando era adolescente assisti muitas bandas tocando em NY. De repente tudo acabou, talvez pela perseguição da polícia. Aí surgiu o Max’s, mas quem tocou lá durante um verão inteiro foi o Velvet Underground, que era um treco horrível. Não era rock and roll. Ou você tocava no emaconhado Fillmore ou pegava um monte de ônibus para assistir a um show. Não havia cena quando os Dolls surgiram”, disse certa vez David Johansen, o vocalista, um sujeito bem mais ligado às artes do que os outros, tendo participado de algumas peças, performances e filmes pornô. “Vivíamos o nascimento do feminismo e da luta gay. Estava nas ruas, em todos os lugares e com um pouco de ácido, a gente achava muito normal participar de tudo isso”, completa. “Todo mundo passou a se maquiar, masa base de tudo foram bandas como os Stones, os Pretty Things, e os Flamin’ Groovies.”Estavam juntos há quatro meses e meio, desde janeiro, tocando uma vez por semana no Mercer Arts Center às terças a meia noite (Kane morreu em uma terça..) na sala Oscar Wilde. O Mercer era um grupo de teatros remodelados no centro da cidade da Grande Maçã com visual inspirado no filme Laranja Mecânica. A banda tocava no chão, no centro da sala, cercada por figuras mais estranhas e bissexuais, entorpecidas por cocaína e pílulas (“Pills”). Meninas pegaram os seus ônibus de todos os cantos da cidade para participar do evento que nascia, com muito glamour. Essa conjunção fez história. Dois garotos de uma bandeca chamada Kiss (Gene e Ace), que iriam dividir o palco com os Dolls na segunda metade de 73, concluíram que deveriam se pintar também. Como se achavam muito feios maquiaram-se de branco e negro. David Bowie e Lou Reed passaram por lá também para aprender algo com os Dolls... Reed chamou-os de “gracinhas” (meio Clodovil isso).A demo número um foi registrada no verão de 1972 em NY. A maior parte das nove canções seriam regravadas para o primeiro álbum. Três meses e meio após a gravação, viajaram para a Inglaterra abrir um show do Rod Stewart com os Faces perante 13 mil almas no Wembley Stadium, sem nunca terem tocado para mais de 300. Duas semanas depois dessa fantástica oportunidade, o baterista Billy Murcia morreu de overdose no sexto dia de novembro. Jerry Nolan, um fã dos Dolls que tocava bateria com o travesti Wayne County (na banda Queen Elizabeth) foi convidado para substituí-lo. Seis semanas depois retornaram ao batente em 19 de dezembro de 1972, mas a banda nunca se recuperou verdadeiramente desse golpe. Nolan era evidentemente melhor baterista, mas parte daquela inocência se fôra, com o primeiro golpe dos muitos que viriam. O disse-me–disse era tanto, que a gravadora Mercury os contratou. O considerado gênio Todd Rundgren foi convidado para produzir. O disco foi gravado em uma semana. Muitas, muitas drogas. Thunders pedindo: “Aumentem mais a guitarra!” Todd quase enlouqueceu, mas o disco saiu em 1973, m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o como ele só.: “Personality Crisis”, “Looking For A Kiss”, “Frankenstein”, “Trash” (Uh, how do you call your lover boy?) , “Bad Girl”, “Pills”, “Jet Boys”... Cada uma melhor que a outra, com ótimas letras e a produção luxuosa no estilo Todd, com tudo no exato lugar. Apesar disso, não atingiu lugar algum na parada inglesa e nos Estados Unidos amargou um centésimo décimo sexto lugar. Perguntem que lugar o tal do Kiss alcançaria...Os caras dos New York Dolls odiaram a produção do Todd, principalmente Thunders, somente Johansen tinha noção de que o trabalho havia sido muito bem feito. Isso sem citar a capa escandalosa: todos travestidos, muito maquiados, perfeitas vagabundas! Uma imagem chocante até hoje, imagine exposta nas vitrines daqueles tempos...Quando os Dolls chegaram a Los Angeles para promover o primeiro disco, a cidade ficou aos seus pés, e de quatro. Mulher, era só piscar. Era tudo alegria e sucesso até que gravaram o segundo LP em março de 1974, com produção do legendário produtor dos anos 60 “Shadow” Morton. Quem intitulou o trabalho de “Too Much Too Soon” (Muita coisa muito cedo) sabia o que estava falando. Apesar de ser aparentemente mais “honesto” do que o primeiro, funcionava menos apesar das fantásticas (desculpem-me tantos adjetivos, mas sou glam) “Babylon”, “Stranded In The Jungle”, “Puss ‘N’ Boots”, “Chatterbox” (com vocais de Thunders), e “Human Being”. O nosso baixista Kane estava numa fase braba durante a gravação, mais alcoólatra do que nunca, e envolvido num caso alucinado com uma groupie/michê do Lower East Side de NY chamada Connie Gripp, que reza a lenda, tentou esfaqueá-lo. Parte do dedo do Arthurzinho caiu pelas tabelas. Como o próprio dono da mão. Uma outra das groupies que dormiram com a banda toda (menos com Kane) chama-se Nancy Spungen... Esse nome te lembra alguém???A promoção do segundo e novo álbum em NY ocorreu no Club 82, cujo(a)s dono(a)s eram lésbico(a)s e em homenagem as/aos drags presentes, e aos proprietários Tommy e Butchie, os Dolls tocaram (com) vestidos de mulher. O/A dono(a) da casa gritou da porta para Johansen: “Eu sempre te disse que você não passava de um veado!” O estranho carma do disco era tanto, que uma música do Mott The Hoople (All The Young Dudes) chamada “Too Much Too Soon” (!) nunca passou do centésimo sexagésimo sétimo (167) lugar na parada norte-americana!!! É... não era para rolar mesmo...Como o disco não decolava e as contas a pagar aumentavam cada vez mais, foram-se as limusines, a mulherada “a fim de” e o belo e grande apartamento duplex, que a gravadora bancava até então. Voltaram, de malas e cuias, para um apêzinho no Village. Sylvian uma vez disse que esse foi o melhor e o pior período da carreira deles. O aspecto positivo, devido ao espaço reduzido, foi que se tornaram mais próximos, como nos velhos tempos do primeiro apartamento de um quarto só no lower east side. Thunders compunha uma música às três da manhã e acordava os outros para que ouvissem a nova cria. As baratas agradeciam. Os Dolls voltaram a ser uma família. De viciados, mas uma família. Nessa fase de vacas magras surgiu uma esperança no horizonte: Malcolm McLaren. Uma esperança frustrada, como veremos a seguir.
CONTOS DA MEIA NOITE
Seis canções que fariam parte do terceiro álbum, nunca lançado, podem ser encontradas no pirata Live In NYC – 1975, lançado pela Restless em CD, depois da primeira versão em LP editada em 1984. Registro da tal Red Patent Leather Tour, a excursão do “couro vermelho”, as seis faixas inéditas “Red Patent Leather”, “On Fire”, “Girls, Girls, Girls”, “Down, Down Downtow”, “Pirate Love” e “Teenage News” são parte desse documento inédito. Apesar do som ao vivo de “gravadorzinho”, esse CD é um importante registro. Dessas faixas, “Girls” foi para o primeiro disco solo do vocalista, “Pirate Love” para o de Johnny e “Teenage News” ficou com Sylvain.Absolutamente TODAS as bandas de glam metal californianas “do planeta” nos 80 se inspiraram no cabelo levantado de Johhny Thunders. E Thunders se inspirou em alguém? Em Rod Stewart! O guitarrista dos Dolls partiu do cabelo de Rod para algo mais radical, pegando aquele cabelo picotado do vocalista e levantando as pontas muito mais para cima, como uma coroa, incluindo ainda uma listra loura platinada na parte de trás. As roupas eram todas da namorada, incluindo um lenço de vaqueiro. Uma das marcas dos Dolls era misturar o visual das garotas dos anos 40 com roupas de caubói.Pegue o filme Velvet Goldmine (1998) na locadora e ouça “Personality Crisis” dos Dolls interpretada pelo Teenage Fanclub com os vocais da “Elastica” Donna Mattews.A Les Paul Gibson branca de Thunders foi repassada para McLaren para saldar uma dívida. Esse mesmo instrumento parou nas mãos de um ladrãozinho desempregado que vivia grudado no rabo de saia desse sujeito empresário/dono de boutique. Em troca, McLaren “exigiu” que o estreante guitarrista montasse uma banda. Quatro desocupados ingleses (na verdade três e um fã dos Beatles) partiram das idéias dos Dolls, gerando os Sex Pistols, na mesma loja de artigos sexuais em Londres, e com o mesmo empresário. O resto, como se diz, é história.Steven Tyler, do Aerosmith, sempre acusado de imitar Mick Jagger, defendeu-se certa vez assim: “Muitos dizem que pareço com Jagger, mas reverenciei mesmo os Dolls. Johansen tinha lábios maiores. Esse cara poderia engolir o planeta...”“Quando os Dolls estavam se preparando para ir à Flórida, Arthur (Kane) teve alta do centro de desintoxicação. Uma hora antes de Malcolm ir pegá-los, Arthur apareceu na minha casa com uma garrafa de uísque.” - Eillen Polk, fotógrafaEpígrafe para Kane: “Ele era assustador quando ficava possesso” - Eillen Polk
Seu empresário em 1975 veio a ser um tal de Malcolm McLaren, dono de uma loja de artigos sexuais em Londres. David Johansen, o vocalista o chamava de “seu dono de armarinho”. McLaren queria entrar no ramo de empresariamento e os usou como passaporte. Os três primeiros shows sob “nova direção” foram no Little Hippodrome em NY, com abertura de várias bandas, entre elas o Television. O apartamento nova-iorquino do inglês só continha um gigantesco mapa dos Estados Unidos na parede e um telefone. Malcolm colocava pins sobre as cidades nas quais a banda tocaria.. e pins nas que haviam se recusado a receber o quinteto. Como ótimo marqueteiro que era, Malcolm ouviu a sugestão da banda de excursionarem vestidos de couro vermelho. Pela história de utilizar a bandeira comunista atrás da bateria, em plena guerra do Vietnã, ninguém se responsabiliza... mas todo mundo sabe que foi coisa do Malcolm, que sacava uns papos de revolução francesa com a banda, e sabecumé...A história do vermelho surgiu durante uma estadia da banda em Londres, quando um dos músicos comprou um par de sapatos carmim. Para não virar bagunça, todos adquiriram o mesmo material. Daí em diante pediram camisetas vermelhas. Malcolm trouxe a rouparia avermelhada da Inglaterra. Surgiu a idéia da bandeira. Uma jornalista alertou: “Nos Estados Unidos, você pode ser viciado, gay, travesti, mas NUNCA um comunista.” Só poderia ter dado merda, e foi o que aconteceu. Quando chegaram à Flórida, a mãe do baterista (que lá vivia) os encheu de milho e purê de batatas porque os achou magros demais. Mal sabia ela... Tudo parecia estar indo bem, até que, no meio da tour, o guitarrista Thunders e o baterista Jerry Nolan decidiram que queriam voltar para NY (pela heroína) a qualquer custo. Mandaram McLaren tomar onde gostava e partiram. Sylvian, a contragosto, os levou até a estação de trens. Thunders nem olhou para trás. Ainda assim, Sylvian perguntou para Nolan: “O que vai ser dos Dolls?” E o baterista respondeu: “Eles foram ótimos, cara... ótimos.” Com a mesma mala que levaram, voaram para a Inglaterra para tocar com sua nova banda, os Heartbreakers, com o ex-baixista do Television, Richard Hell. Sem querer fazer piada sem graça, e já fazendo, a coisa pegou fogo (ou virou um inferno) e Hell “picou” a mula logo, fundando os Voidoids. Ao mesmo tempo, a dupla Sylvian/Johansen montou um novo Dolls com mais músicos, partindo para o Japão em julho (Kane morreu no mesmo mês...) do mesmo ano, mas as bonecas já haviam se incendiado...McLaren convidou Sylvian para ingressar nos Pistols. Ele recusou. Os Heartbreakers, além de terem feito uma bela carreira (inclusive “junkie”) com muitos hits (“One Track Mind”, “I Wanna Be Loved”, “Let Go”, “Get Off The Phone”, “All By Myself”, “Going Steady”, “Born To Lose” etc ), participaram da primeira turnê punk inglesa com os Pistols, o Clash e o Damned. Quando Nolan desistiu em 77, dois dos bateristas substitutos nos Heartbreakers foram Paul Cook dos Pistols e Terry Chimes do Clash. Em janeiro do mesmo ano, Sylvian sofreu um acidente de carro, quebrando a perna. Com o dinheiro do seguro prensou cinco mil cópias de sua nova banda, Criminals (após passar um par de anos acompanhando Johansen). A partir de 78, com a falência da gravadora dos Heartbreakers, Thunders seguiu solo (ouçam o ótimo So Alone, com as participações de Phil Lynott, do Thin Lizzy, e Steve Marriot, dos Faces/Humble Pie), até reformar os Breakers na década seguinte. Nos anos 80, Johansen mudou de nome para Buster Poindexter e coadjuvou dezenas de filmes, além de continuar gravando música de cabaret e blues. Arthur Kane tocou com a Killer Kane band, os Corpse Griders e os Idols, durante essa longa espera. Em 1991, após anos de vício, Thunders partiu desse mundo para melhor, no mês de abril. Nolan caminhou para os braços de Deus no mesmo ano devido a um ataque cardíaco e apenas quatro meses após a morte de Thunder.
E Morrissey? O que tem a ver com os Dolls? Ele era o presidente do fã-clube inglês da banda nos anos 70! Parece incrível, mas as viadagens do ex-homem (????) de frente dos Smiths eram herdadas de um comportamento tipicamente dolliano. Como um profeta, Moz, convidado para atuar como diretor artístico do Meltdown Festival, na Inglaterra, ocorrido entre os dias 23 e 25 de junho, incentivou a reentré dos Dolls, após 27 anos de separação, além de tê-los chamado para abrir alguns dos próprios shows em Nova York no mês de maio. E, como quem não quer nada, os fez assinar com o selo Attack, de sua propriedade, para lançamento do novo CD em setembro. Morrisey cismou de ver os Dolls no palco mais uma, e talvez a última vez. Tinha convidado inclusive Chrissie Hynde, dos Pretenders, que era sócia de carteirinha do mesmo fã-clube, para substituir Thunders no festival (mas descolaram o ex-Guns N’Roses Izzy Stradlin para o lugar), e para o banco-quente do baterista foram convidados alguns músicos da nova geração britânica.... mas um deles topou o desafio.A formação que se apresentou no Royal Festival Hall em Londres na noite do dia 16 de junho contou com a bateria de Gary Powell, dos Libertines, além de Izzy na guitarra. Talvez por Kane estar por perto, furtaram do palco, e na mão grande, um livro de “incalculável valor sentimental” com as letras do grupo, no final do show!!! Começou mal e terminou pior ainda. Parece brincadeira, mas já adoentado, Arthur Kane aceitou a tarefa e realizou a sua parte com maestria. O baixista não tocou no Move Festival, em Manchester, devido à doença, porém, já um pouco recuperado, fez a grande apresentação de sua vida no festival produzido por Morrissey. Kane ficou estupefato com a reação do público com as velhas canções dos Dolls. No Meltdown, Johansen fez um comentário jocoso para a platéia sobre o estado físico do baixista: “Vocês acreditam que esse aí é o Killer Kane?”. Segundo a BBC, Killer parecia ter sido sedado para conseguir subir ao palco. Apesar dos comentários, o show foi maravilhoso, incluindo músicas dos dois álbuns, incluindo homenagem ao defuncto Johnny Thunders (tocaram o grande clássico do guitarrista “You Can´t Put Your Arms Around a Memory”). Terminaram o set com “Personality Crisis” e “Human Being”, que recebeu uma ovação do público. Um mês depois estava morto. Teve sintomas de uma gripe, foi internado e não saiu do hospital...Uma das características do baixista era ser detentor de um azar cármico, ou no mínimo, ser o rei das más companhias, nunca se sabe ao certo. Lembram daqueles tumultos em Los Angeles, em 1991, quando policiais brancos foram absolvidos após espancarem o negro Rodney King nas ruas? A cena passava repetidamente na TV naquela época. Pois bem, no meio dos tumultos, Kane cismou de sair de casa. Jovens negros saíram às ruas para protestar. Outros para vandalizar. Kane na rua... Negões na revolta... Adivinha quem encontrou quem? Resultado: 54 mortos, 13.212 prisões, U$700 milhões de prejuízos e 2382 mais Kane na lista de feridos.
Discografia
New York Dolls (1973), Too Much Too Soon (1974), Johnny Thunders & The Heartbreakers - LAMF Revisited (coletânea, Receiver, 1994), Johnny Thunders & The Heartbreakers – Live At Max’s Kansas City ’79 (Trama/Roir), Lipstick Killers (a demo, com o primeiro baterista – Trama)

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