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domingo, 23 de março de 2008

REM - "Accelerate"

Há várias maneiras de entender o décimo-quarto disco do REM, Accelerate. Você pode pensar que a banda retorna ao rock dos seus primeiros dez anos de vida. Ou pode achar que eles estão com vontade de mostrar que ainda têm lenha pra queimar, após o lançamento do fraco Around The Sun, há quatro anos. Pode ainda achar qualquer outra coisa. Você não estará errado.

REM - Na Velocidade Do Som
Carlos Eduardo Lima

O bumerangue do rock fez mais uma vítima. O REM, logo ele, um grupo acima de qualquer suspeita, que passou grande parte dos anos 90 usando seu know-how na forja de canções rock igualmente acima de qualquer suspeita, ousando em discos híbridos e agora retorna ao som que o tornou dono de uma reputação pra lá de ilibada.

Esse parágrafo está intencionalmente cheio de interpretações tendenciosas. Analisar um disco como Accelerate a esta altura do campeonato pode ser mais simples do que parece. "O REM, de saco cheio do mundo e do relativo insucesso de seu último disco, resolveu fazer um álbum de rock". Sim, é isso mesmo. Mas, se o mundo fosse tão simples, talvez a vida fosse linear demais e os significados se perdessem num grande Admirável Mundo Novo emburrecedor e estéril.

Accelerate é mais que uma volta às origens ou uma auto-vendetta pessoal contra algum tropeço do caminho recente. É um autêntico disco de rock, espécime raro hoje em dia, com trinta e cinco minutos de duração e composto por onze canções diretas e retas. Quem pilota o estúdio é o mesmo produtor Jacknife Lee, o sujeito que engendrou a volta às origens de outra banda, o U2, em How To Dismantle A Atomic Bomb.

O que podemos fazer quanto a isso é procurar no próprio cânone da banda de Athens, Geórgia, o significado disso tudo. É uma pequena viagem que nos leva a uns treze, quatorze anos no passado. Já voltaremos. Logo de cara esbarraremos em Monster, gravado em 1994. Era um disco em que o REM procurava se enguitarrar e celebrar a vontade de dar chutes no balde. Para isso a banda encontrou um formato meio glam, meio setentista e pariu um álbum torto, mas belíssimo e nem um pouco diferente da essência dos trabalhos anteriores.

Explica-se: em 1992 o REM lançara Automatic For The People, um trabalho quase conceitual em termos de sonoridade, no qual cordas, violões acústicos e guitarras sombrias serviam de moldura musical para letras tristes de Michael Stipe. A produção de John Paul Jones, o ex-baixista do Led Zeppelin, dava uma solenidade até então inédita ao som do REM.

Um ano antes, a banda lançara Out Of Time, seu disco de maior sucesso comercial e que esfregou as fuças de Stipe, Peter Buck, Mike Mills e Bill Berry nas telas das MTVs ao redor do mundo. O disco, puxado por dois hits insuperáveis, "Shiny Happy People" e "Losing My Religion", tirou a banda do nicho "rock alternativo" e a levou para o mundo.

Na verdade o REM já colocara sua cabeça para fora desse ambiente quando assinou contrato com a Warner para a composição de cinco discos em 1988. O primeiro dessa leva foi Green, gravado um ano depois e que produziu o semi-hit "Stand", bobinho mais eficaz em preparar o terreno para a chegada do multi-platinado Out Of Time.

O que essa pequena volta no Túnel do Tempo do catálogo REM é que até 1988 o quarteto foi uma espécie de totem da independência e da correção musical. Aquele tipo de artista que escolhemos para acolher nossa esperança que tudo dê certo no final porque tem a capacidade de se assimilar ao nosso cotidiano e o curioso tique de cantar letras que se encaixam em situações da nossa vida, sem que tenhamos contado nada a Stipe e seus camaradas. O REM foi isso para uma geração inteira, a minha, ao longo dos anos 80.

O contrato com o selo IRS deu ao mundo uma fileira de discos mais ou menos perfeitos, dentre os quais há que se falar em Murmur (1983), Life's Reach Pageant (1986) e Document (1987) e numa aura musical que só encontrava paralelos no U2, levando-se em conta o fato dos irlandeses contarem com um contrato multi-milionário com a Island/Polygram, uma carreira de exposição total na mídia mundial, além de discos formadores de opinião como Unforgettable Fire e Joshua Tree. O REM tinha, portanto, uma saudável atmosfera de "não vendidos para o sistema", que foi abalada quando surgiu o tal contrato astronômico (na época) com a Warner.

Corta novamente para 1994. Após lançar Monster, divulgá-lo na estrada e como o tal "retorno ao rock", o REM deu inicio a uma seqüência de trabalhos intencionalmente diferentes de tudo que fizera até então. New Adventures In Hi-Fi (1996) ainda é pleno de significados e canções pungentes. A partir dele, a banda não teve mais a presença do baterista Bill Berry (ele teve um aneurisma e se aposentou).

Em Up (1999), o banda começou a perder-se em um redemoinho criativo, mais ou menos disfarçado de ousadia. Se os teclados e as sutilezas de Up poderiam indicar alguma intenção, poderiam também ser entendidos como um relaxamento. OK, a banda tinha crédito, tanto que a chegada de Reveal (2001) foi recebida com vivas e um hit, "Imitation Of Life", que remontava ao climão de "Losing My Religion", o que não significava, a esta altura, um ganho de qualidade. Foi outro disco morno, sem muito foco mas nada comparado com a absoluta queda de produção notada em Around The Sun, de 2004.

Um aparente erro de estratégia ainda levou a banda a lançar seu primeiro disco ao vivo, Live (2007) a partir da turnê de Around The Sun. Talvez tenham querido mostrar que retornavam ao punch perdido, pois músicas como "Leaving New York" ou "I Took Your Name" surgiam em versões mil vezes melhores que as registradas no disco de estúdio. Verdade que o poder de fogo do REM ao vivo sempre foi algo consensual, mas o clima em Live já estava mais para aquela fase de concepção de idéias de próximo disco do que rescaldo de turnê. E o próximo álbum é Accelerate.

O disco é um acerto do início ao fim. Poderia ser inserido entre 1985 e 1987 sem sustos. O clima é de celebração e reencontro. Dá a impressão que os sujeitos voltaram pra casa e no tempo, e se sentaram num cafofo qualquer para ouvir os velhos discos da adolescência. Uma lista de que poderia constar Horses, da musa de sempre Patti Smith, The Idiot, de Iggy Pop, alguma coisa de David Bowie (talvez Station To Station), singles esquecidos dos New York Dolls e, claro, Byrds, Flying Burrito Brothers e Velvet Undergroun, a tríade sessentista do som clássico do REM.

Accelerate começa com um fraseado de guitarra que desagua numa levada rápida de bateria e a voz de Michael Stipe entra de sola, berrando e gritando em alta velocidade. É a sintomática "Living Well Is The Best Revenge", mostrando que a idéia é falar de acerto de contas. "Man Sized Wreath" lembra o clima das canções de Monster, muita guitarra, bateria e baixo servindo de fundo e teclados presentes.

O vocal de apoio clássico de Peter Buck presente em quase todas as canções e a reação do ouvinte é de alegria com o riff sessentista de "Supernatural Superserious", que desagua numa típica canção da banda, cheia de riqueza melódica. Accelerate ainda passeia feliz com músicas "Mr Richards", "Sing For The Submarine" mas mostra-se sombrio em "Houston" e "Hollow Man", que começa climática e desemboca na rapidez aerodinâmica de baixo-bateria-guitarra, característica da banda.

"Horse To The Water" se resume em dois minutos e dezoito segundos de guitarras e vocais berrados, como há muito não se ouvia. E "I'm Gonna DJ" abre com o verso "Death is pretty final / I'm collecting vinyl / I'm gonna DJ at the end of the world!".

Discos como esse - que trazem uma banda com algo a dizer, canções bem compostas, capacidade de sobrevida dentro do contexto e relevância - são raros. Ele não se insere - e nem quer - no mesmo nicho das bandas inglesas atuais ou das que fazem o tal rock chororô dos Simple Plans da vida. É quase um artefato de uma época distante, mais precisamente de uma década e meia. Para as listas de melhores de 2008.

Fonte: Rockpress
http://www.rockpress.com.br/modules.php?name=News&file=article&sid=2436

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