Who, Stones, Hendrix eram coisas enormes e incontroláveis nos anos 60. Beatles e Beach Boys eram grandes comunidades cerebrais de revoluções em formas de disco e músicas. Pareciam prontos para conquistar o mundo. E o fizeram, a despeito do que os hypes de hoje possam sugerir. Mas... e o Led Zeppelin?
LED ZEPPELIN
Um certo Zepelin de chumbo
Carlos Eduardo Lima
O rock, amigo leitor, já foi uma coisa grande. Grande no sentido amplo do termo, do latim "latu". Um enorme dínamo fazendo o movimento propulsor de verdadeiras revoluções, epifanias em shows e acordes que poderiam mudar o mundo, a cabeça e a vida das pessoas, a arte. Tudo no sentido mais gigantesco, maior, generosamente capaz de acolher todos que quisessem momentos de decibéis altos, solos inesquecíveis e artistas capazes de dar o coração no palco para uma platéia se levantar e ir para a casa com uma idéia diferente sobre todas as coisas, as mesmas que lhes pareciam tão familiares horas antes. O rock mudava as pessoas e as pessoas ainda não eram capazes de moldar o rock.
Por isso, ele, o rock, permaneceu tanto tempo visto como uma ameaça. Era o momento em que as coisas faziam sentido sem parecer, os clicks eram constantes, o sentido das coisas era um só. Mudar o mundo através da música. Uma estranha reação atávica, própria desse macaco com cérebro que é o ser humano. Bandas eram agentes infecciosos do novo, do incontrolável. As tradições todas juntas, apenas para serem subvertidas, com respeito de quem subverte para melhorar, para ampliar.

Who, Stones, Hendrix, todos eles eram coisas enormes e incontroláveis nos anos 60. Beatles e Beach Boys eram grandes comunidades cerebrais de revoluções em formas de disco e músicas. Nada era capaz de detê-los, pareciam prontos para conquistar o mundo. E o fizeram, a despeito do que os hypes de hoje possam sugerir. Mas... e o Led Zeppelin?
Talvez seja a maior banda de todos os tempos. Sempre alguém vai ponderar sobre a excelência melódica dos Beatles e dos Beach Boys ou sobre a safadeza anglo-americana de Who e Stones, às voltas com o r&b preto. Mas o Zeppelin era a banda. A coisa ficava indigesta no palco quando aqueles quatro sujeitos estavam por lá.
Plant a ponto de estourar as cordas vocais; Page, um mestre à altura de um Paganini da vida, descobrindo usos para a guitarra enquanto a estuprava com acordes profanos; John Paul Jones mantendo a elegância discreta dos baixistas, mas aqueles que tramam conquistar o mundo e comem mais mulheres que o vocalista e, por fim, John "Bonzo" Bonham, conhecido como " A Locomotiva", um ser humano capaz de imprimir um ritmo sincopado a um kit de bateria durante muito tempo sem perder qualquer noção do que estava fazendo.
Para fazer sucesso naqueles tempos de sinceridade a banda precisava ser boa. A coisa precisava acontecer no palco, cara a cara. Os olheiros de gravadoras se embrenhavam na multidão e deixavam os futuros contratados fazerem sua parte no palco. Uma banda como o Led Zeppelin deve ter sido fácil de se contratar.
O que os quatro propunham em seu menu musical era a fusão do folk inglês com o blues negro e uma sonoridade rocker pesada, gorda mas de fino trato. Eletroblues? Heavy Folk? Nada disso. O rótulo que se deu a isso foi Led Zeppelin.
Em 1970, com pouco mais de um dois anos de carreira, a banda já tinha três discos impecáveis gravados, a Grã-Bretanha cabia no bolso esquerdo do colete e preparava-se para o lançamento de mais um disco. Este era a princípio sem nome, quebrando a seqüência de numeração que os Led Zeppelins de I a III tinham estabelecido. O álbum não tinha nada escrito na capa, apenas a gravura de um velho levando um tufo de feno nas costas. Na verdade a capa se abria e revelava o sentido daquela gravura.
ROCK PRESS, num exercício de sadismo para o seu próprio bem, amigo leitor, não dirá o que revela a capa, na intenção de fazê-lo comprar um dos discos mais importantes do rock em todos os tempos e ver por si mesmo. A turnê que a banda planejava para o lançamento deste disco incluía uma série de apresentações em emissoras de televisão européias, shows em milhares de lugares e, a-ha, uma viagem extensa à distante América, pronta para ser desvirginada por um certo Zepelin de chumbo, exatamente na Califórnia. Corta.

A história da carreira do Led Zeppelin seguiu seu curso, sempre ascendente, até o ano de 1976. Com a chegada do disco e filme The Song Remains The Same (traduzido por algum gaiato para o português da ditadura militar como "Rock É Rock Mesmo") - um relativo fracasso - e o início das atividades dos punks, a banda começou a ver suas extravagâncias perderem o sentido, ficando três anos sem gravar nada, até 1979.
Quando se preparavam para a turnê do recém-lançado In Through The Out-Doors, a morte de John Bonhan, vítima de uma vida inteira de detonações movidas a álcool, drogas e tudo mais, levou o grupo a declarar seu fim.
Essa carreira gloriosa, invicta, nunca havia tido um registro visual a contento. O filme, apesar do pioneirismo da época, trazia nove músicas ao vivo, gravadas no Madison Square Garden, durante a turnê de 1973, nunca satisfez a gula dos fãs. A edição das músicas, a mixagem do disco, tudo contribuía para um gosto de cabo de guarda-chuva na boca dos que sabiam do que a banda era capaz num palco.
Muito tempo depois, mais precisamente em 2002, Jimmy Page iniciou uma pesquisa nos arquivos do Led Zeppelin para um DVD. Enquanto compilava imagens raras, revia o relançamento remixado da obra da banda ao longo dos anos 90, a coletânea definitiva (quádrupla ou dupla) Remasters, lançada em 1991, enfim, tudo o que havia sido feito em termos de Zeppelin nos anos anteriores, Page encontrou registros sonoros de grande qualidade das poderosas turnês americanas de 1970 e 1972. O ápice do Led.
Daí nasceu o projeto How The West Was Won, ou "Como o Oeste foi ganho", uma alusão à conquista da audiência americana para todo o sempre, a partir daqueles shows mágicos, fadados a virar comida de sortudas traças. Com vários $$$ no coração, Page deu início à compilação dos shows de Los Angeles, em 25 e 27 de junho, no LA Forum e Long Beach Arena, respectivamente, visando agora o lançamento em CD do primeiro registro oficial "ao vivo" do Led Zeppelin em toda a sua carreira.
Uma ironia histórica que foi finalmente corrigida. Num lançamento enorme, exatamente como tudo referente ao Led Zeppelin sempre foi, um disco triplo ao vivo e um DVD duplo foram lançados, dispostos a cobrir a primeira encarnação do Zep, a fase em que eram deuses no palco, antecedendo as experimentações que vieram em discos sucessores como Houses Of The Holy e Physical Graffiti.

Vamos por partes, então. O disco, com uma clareza digital ofuscante traz a íntegra dos dois concertos. Performances supersônicas para clássicos eternos como "Whole Lotta Love","Rock'N'Roll", "Dazed And Confused" (todas com mais de dez minutos de duração). O tradicional set acústico, com "Going To California", "Brown-Yr-Aur Stomp" e "That's The Way".
Page ainda incorpora elementos do "Bouree Em E Menor" de Bach, no meio do solo de "Heartbreaker". O solo de Bonzo em "Moby Dick" também aparece em toda a sua plenitude. A banda ainda era camarada: soltou três músicas até então inéditas: "Dancing Days", Over The Hills And Far Away" e "The Ocean", que só viriam ao mundo com o lançamento de Houses Of The Holy, no ano seguinte.
O DVD é um assombro. Talvez a magnitude só seja sobrepujada pela série Anthology, dos Beatles. No caso do Led Zeppelin, são mais de cinco horas de material abrangendo toda sua carreira. A íntegra da performance no Earl's Court em 1970 toma o primeiro disco. Se entrelaçam no segundo disco uma performance de "Immigrant Song", de 1972, com os shows do Madison Square Garden, de 1973 (com as músicas que não aparecem em The Songs Remains The Same).
Em maio de 1975 a banda não parece ter envelhecido um dia ao voltar para o palco do Earl's Court. Em 1979, no Knebworth seu último show) o Zeppelin ainda mostra poder de fogo suficiente para peitar qualquer banda punk da época. Versões lindas de "Achilles Last Stand", "In the Evening" e a obra-prima "Kashmir" sobem direto ao éter. Não bastasse os shows, vários comentários dos integrantes, material gravado em bastidores, cenas de estúdio, especiais para as redes de televisão, além das míticas quebrações de quartos de hotéis.
Tudo isso parece uma relembrança de algo que não veremos novamente. Talvez seja verdade, se este mundo abriga gente que ousa comparar o White Stripes com o Led Zeppelin. Vendo-os ao vivo, vinte e três anos depois do encerramento de suas atividades, podemos perceber que tudo mudou. As coisas diminuíram, o rock virou um mero produto, e ainda estamos comprando escadarias para o céu. Este DVD é um passaporte carimbado para um vôo sensorial a bordo do Zeppelin que temos dentro de nós, o qual habita a todos que gostam de rock. O grande rock de outrora.

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