BIO
“If you don’t have roots, you don’t have shit”
“If you don’t have roots, you don’t have shit”
Formado em 1979 em Fullerton, cidade que compõe o cinturão da laranja nos arredores de Los Angeles, o Social Distortion pertence a uma geração de desbravadores do punk americano.
Ao lado de contemporâneos como X, Germs, Black Flag e Agent Orange, o grupo ajudou a fundar os alicerces do que seria a cena punk da Califórnia. Esse importante período da história foi registrado pelos documentaristas Adam Small e Peter Stuart no aclamado “Another State of Mind”, filme que mostra a aventura de Social Distortion e Youth Brigade a bordo de um velho ônibus escolar, numa excursão que durou seis semanas e percorreu 16 mil quilômetros.
O documentário, que foi recentemente lançado em DVD e teve uma sessão especial no último Festival de Cinema de Los Angeles, captou história em movimento e o despertar de duas bandas que se tornariam célebres no underground americano. Só que, ao contrário dos irmãos Stern, do Youth Brigade, o Social Distortion não criou raízes na cena punk e acabou percorrendo um caminho diverso.
Depois de alguns compactos e dos LPs Mommy’s Little Monster e Prison Bound, o quarteto de Orange County assinou contrato com a Epic, braço da Sony Music, para a qual gravaria três álbuns e acumularia discos de ouro e a admiração de artistas como Neil Young, Johnny Cash e Bruce Springsteen. Essa carreira peculiar, que nasceu no punk e extrapolou suas fronteiras e convenções, foi arquitetada por Mike Ness sem calcular riscos ou potencial comercial.
“Alguns desses punks puristas acham que ainda é 1976, mas nunca vai acontecer de novo. Pra mim isso é como não crescer nunca. Quando tinha 17 anos eu era punk, mas agora não sei. Meu visual e minha atitude estão diferentes, sou um homem”, declarou Ness à RP, em 1999. A evolução musical do Social Distortion não renegou o passado, mas trouxe consigo composições mais elaboradas, novas referências e letras bem mais maduras. Muito antes de se falar em alt country, Mike Ness já alardeava seu DNA musical: Hank Williams Senior, Clash, Ramones, Johnny Cash e Rolling Stones. Essa reverência às raízes da música americana, envenenada pelo punk safra ’77, resultou em discos que estão envelhecendo muitíssimo bem, como Social Distortion, de 1990, e Somewhere Between Heaven and Hell, de 1992.
Esses e outros álbuns, como Prison Bound, de 1988, e o já citado White Light, trazem o sabor do autêntico rock’n’roll americano e letras escritas por um autor que se inspira em sua própria vida para ilustrar a história dos perdedores e desafortunados. Filho de pai alcoólatra, Ness expressa seu comportamento anti-social desde as primeiras canções e durante a segunda metade dos 80’s, enfrentou de detenções a um pesado tratamento contra dependência química. “Artistas sempre precisam ter conflitos internos e externos. Não sei se sou uma pessoa à margem da sociedade, mas nunca fui muito social”, afirmou Mike na mesma entrevista.
O conjunto da obra e os 25 anos de integridade renderam ao Social D – como é chamado pelos fãs – as honrarias e o respeito de uma autêntica instituição do rock’n’roll. Com credibilidade de veteranos, Mike e seus comparsas também foram responsáveis por criar, de tabela, uma subcultura que serviu de inspiração para dezenas de outras bandas bem sucedidas, seja no meio independente ou no mainstream. Essa tal “subcultura” não se limita ao punk que respira country, blues e rockabilly, e estende-se por um imaginário permeado de pin ups, carrões, jogos de azar e bad boys à Marlon Brando; além de uma obsessão por tatuagens e indumentária retrô. Ness tornou-se, assim, a personificação do cool. Seu passado de pioneiro punk é uma credencial que legitima toda sua obra posterior, que inclui baladas sobre solidão e miséria espiritual, regravações de canções perdidas dos 50’s – como “King of Fools”, “Ring of Fire” e “Making Believe” – e dois discos solo em que declara sua adoração pela música country americana.
Mike Ness solo
Livre do contrato com a Epic em 1997, o Social Distortion mudou seu ritmo de produção e retornou ao selo que reeditara seus primeiros trabalhos: Time Bomb Recordings. Depois de um esfuziante disco ao vivo, Live at the Roxy, de 1998, Ness deu um descanso ao grupo e lançou, num só ano (1999), dois trabalhos solo: Cheating at Solitaire e Under the Influences. O primeiro deles é uma pequena obra-prima recheada de belíssimas composições próprias que passeiam pelo country, bluegrass, folk e rockabilly – sempre com uma coração punk rocker – além de algumas releituras para canções de Bob Dylan (“Don’t Think Twice”), Hank Williams (“You Win Again”) e outros. Cheating at Solitaire traz ainda dois ótimos duetos: “Misery Loves Company”, com Bruce Springsteen, e “Crime Don’t Pay”, com Brian Setzer.
Mike Ness demonstra nesse álbum uma tremenda desenvoltura como cantor e compositor, e também a pretensão de investir em arranjos consideravelmente mais elaborados, lançando mão de instrumentos que não costumávamos ouvir no Social D: sax tenor, teclados, percussão, slide guitars, bandolim, contrabaixo acústico e muitos outros. Entre o time de músicos, há convidados como Billy Zoom, do X, e Josh Freese, o virtuoso baterista dos Vandals. Alguns meses depois de Cheating at Solitaire, a Time Bomb soltaria na praça outro trabalho solo de Ness: o álbum de covers Under the Influences.
Dessa vez, o líder do Social Distortion vai ainda mais fundo em sua viagem pela música americana, regravando clássicos de Johnny Cash, Sonny Curtis, Hank Williams, Carl Perkins e muitos mais. Depois de uma turnê em teatros e casas de blues tradicionais, Mike confessou que sentia falta de sua velha Les Paul e das platéias mais rockeiras. Começava então a especulação acerca do sucessor de White Light, que terminaria somente agora, com o anúncio de Sex, Love and Rock’n’Roll.
Sexo, amor & rock’n’roll
De volta ao disco após oito anos, o Social D faz uma síntese de sua carreira apostando numa produção esmerada e com potencial para tomar de assalto as rádios de todo o planeta, sem que isso signifique desviar um grau sequer de sua íntegra trajetória musical. A formação da banda traz aqui, além de Ness, o guitarrista Johnny Wickersham – ex-Youth Brigade e Cadillac Tramps –, o batera Charlie Quintana – o mesmo de Under the Influences – e o veterano baixista John Maurer.
Antes do disco chegar às lojas, porém, Maurer anunciou sua saída após 20 anos de banda. Seu substituto provisório é Matt Freeman, do Rancid, que já está na estrada participando da nova e concorrida turnê. Mas, afinal, o que o Social Distortion reservou aos fãs depois de quase uma década sem apresentar material inédito? Como de costume, há canções de forte conteúdo emocional e algumas letras autobiográficas, sendo que a mensagem agora é de amor e esperança. O título do álbum não esconde suas intenções e só mesmo uma banda com tamanha longevidade e irretocável discografia para conquistar o direito de abusar de certos clichês, como brincar com o velho chavão “sexo, drogas e rock’n’roll”.
O trabalho anterior, consideravelmente mais pessimista e amargo, se apropriava do título de um disco do Velvet Underground (White Light/White Heat, de 1968) e acrescentava a ele a escória (White Trash) tratada em várias de suas letras. Já Sex, Love and Rock’n’Roll aponta outra realidade: Mike Ness está casado, com dois filhos e livre do vício em heroína. O amor em lugar das drogas e da autodestruição é o recado de um artista de alma torturada, mas que, aos 42 anos, viu-se livre de seus demônios particulares e descobriu um contraponto para a rebeldia e a alienação adolescentes.
“Quero que meus filhos tenham o que eu não tive. Cresci num ambiente sombrio, então, me apaixonar ainda é uma novidade. Acho que você poderia me chamar de ‘emocionalmente imaturo’, mas estou aprendendo a lidar com isso”, declarou em recente entrevista ao tablóide alternativo The Blackboard. O sentimento de perda, intensificado pela morte de Dennis Danell, em 2000, também é tema recorrente no álbum. A belíssima “Reach for the Sky” fala sobre aproveitar cada segundo da vida. É uma clara reflexão sobre a inesperada morte de seu companheiro de banda e amigo de infância aos 38 anos de idade, vítima de aneurisma cerebral.
“Don’t Take Me for Granted”, por sua vez, não requer interpretações e foi declaradamente escrita em homenagem a Danell. A letra é uma das mais belas já escritas sobre a verdadeira amizade e a relação com a perda: “Sou o sangue na sua guitarra / A onda que te pegou em 1975 (…) / Então leve-me para a estrada / Leve-me para o show / Há algo no qual acreditar / Que ninguém mais conhece / Mas não me tome por certo”. Esse conceito é estendido para a capa de Sex, Love and Rock’n’Roll: a famosa Les Paul dourada de Mike Ness está no centro de um altar decorado com velas acesas e arranjos que remetem aos funerais hispânicos.
Os mais céticos, porém, podem fazer aí uma outra leitura: a foto simbolizaria o último capítulo da saga do Social Distortion. Se considerarmos os longos intervalos entre cada disco, o desgaste emocional com a morte de Danell e a saída de Maurer após 20 anos de estrada, dá para suspeitar que Sex, Love and Rock’n’Roll seja, de fato, um anunciado epitáfio. Uma frase dita por Ness há alguns anos, dá a dica: “Acho que conseguimos levar o Social Distortion até o máximo que poderíamos chegar sem deixarmos de ser o Social Distortion”. Mas o fluxo de adrenalina com o novo disco e uma turnê sold out pode seduzir o veterano rock’n’roller a manter a lenda viva.
Na mesma entrevista ao Blackboard, Mike confessou: “Me diverti tanto produzindo esse álbum e compondo com novos músicos, que (o disco) ainda nem saiu e eu já o amo. Coloquei tudo de mim nele. E em relação ao próximo, talvez possamos compor alguma coisa na estrada. Vamos excursionar, voltar para casa, descansar um pouco e então, gravar outro disco”. Que assim seja.

Nenhum comentário:
Postar um comentário